Banne 01

Campanha de Lula para Boulos expõe fraturas na base e obst√°culos para 2026

Lula foi acusado por partidos da base e de oposição de propaganda eleitoral antecipada

Por Eduardo Rabêllo em 06/05/2024 às 10:06:18
Foto: ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Foto: ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O pedido de voto do presidente Lula (PT) no seu pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), durante o evento do 1¬į de Maio expôs fraturas na base de apoio do petista no Congresso Nacional e dificuldades para 2026.

Enquanto o PT e siglas de esquerda apoiam Boulos, o arco de partidos que sustenta Lula em Brasília se divide também nas candidaturas advers√°rias, do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e de Tabata Amaral (PSB).

A aliança de Nunes deve reunir ao menos 11 partidos –7 deles fazem parte da base do petista, com 11 ministérios. Na quarta-feira (1¬ļ), líderes de parte dessas siglas, como MDB, União Brasil, PP e Solidariedade, repudiaram publicamente a atitude do presidente.

J√° o PSB ocupa a Vice-Presid√™ncia da República com Geraldo Alckmin, que estava no palanque quando o petista pregou voto em Boulos e, horas mais tarde, participou de evento promovido por Tabata.

Lula foi acusado por partidos da base e de oposição de propaganda eleitoral antecipada, o que pode render uma multa ao petista. Além do MDB, outras legendas, como o PSDB e o Novo, levaram o caso à Justiça Eleitoral.

Na quinta (2), Nunes afirmou "ser triste um presidente se submeter a um papel desse". "É como se estivesse abrindo uma guerra contra mim." O prefeito disse ainda que é preciso ter "certa civilidade" e não utilizar a m√°quina pública. "É o que deixa a gente bem triste, sabe? Porque é uma pessoa experimentada, deveria ter um pouquinho de respeito", declarou sobre Lula.

Embora as críticas ao presidente sejam gerais, com a avaliação de que ele ultrapassou o limite da lei eleitoral ao usar um evento institucional como palanque para Boulos, os partidos que integram o governo federal e apoiam Nunes se dividem entre elevar o tom contra o petista ou dissociar a eleição municipal e o cen√°rio nacional.

No ato organizado pelas centrais sindicais, na zona leste, Lula disse que o pleito paulistano seria uma "verdadeira guerra", se referiu a Nunes como "nosso advers√°rio municipal" e pediu para que seus eleitores votassem em Boulos.

"Ninguém derrotar√° esse moço aqui se voc√™s votarem no Boulos para prefeito de São Paulo nas próximas eleições", disse Lula. "Vou fazer um apelo: cada pessoa que votou no Lula em 89, em 94, em 98, em 2006, em 2010, em 2018¬Ö 2022, tem que votar no Boulos para prefeito de São Paulo."

A legislação eleitoral impõe restrições à propaganda na chamada pré-campanha e proíbe pedido de voto. Advogados consultados pela Folha afirmaram ver indícios de ilícito eleitoral na fala de Lula, que ficaria sujeito a multa de R$ 5.000 a R$ 25 mil. A propaganda eleitoral ser√° permitida somente após o dia 16 de agosto.

Apesar das reclamações públicas, a pré-campanha de Boulos mantém a estratégia de vincular Nunes a Jair Bolsonaro (PL) e alertar para o que chama de risco bolsonarista na capital paulista. O discurso é alinhado com o PT.

A equipe do deputado acompanha os desdobramentos jurídicos do caso, mas minimiza as críticas e, apesar do esvaziamento do ato de 1¬ļ de Maio (motivo de queixa inclusive de Lula), diz que o episódio teve dois pontos benéficos: ajudou a difundir a informação de que Boulos é apoiado pelo presidente e resultou em divulgação espontânea da pré-candidatura.

J√° aliados de Nunes afirmam que Lula agravou seu problema de governabilidade ao afrontar partidos da base e a eleição em São Paulo pode virar moeda de troca no Congresso. As reclamações públicas e as ações eleitorais foram vistas como uma ameaça para que o petista não repita o erro político.

Na semana anterior, um jantar de presidentes dos partidos que apoiam Nunes sinalizou para a oposição a Lula em 2026. Agora, após o 1¬ļ de Maio, a leitura de alguns desses líderes é a de que o presidente deu motivo para um eventual desembarque.

Vice-presidente do Solidariedade, Paulinho da Força afirmou ao Painel que Lula est√° criando dificuldades para o próprio governo.

"Ele fica pregando esse ódio, [ele diz] "esse é o nosso advers√°rio, nós contra eles, melhor aqui é o Boulos". Como ele despreza os partidos que estão na base dele? Depois como ele pede voto no Congresso, à medida que trata todo mundo como advers√°rio? Se é advers√°rio aqui [em São Paulo], também vai ser l√°", disse.

Milton Leite, presidente da Câmara dos Vereadores e principal nome da União Brasil em São Paulo, falou ao Painel que poderia reavaliar a relação com o governo federal. "Nas cidades temos v√°rios aliados do Congresso que agora estão sendo chamados de advers√°rios", disse.


Ciro Nogueira, presidente do PP, descreveu o pedido de voto como "absurdo cometido contra a democracia e o povo de São Paulo pelo presidente da República e o candidato Boulos". "Se eles começam a descumprir a lei j√° agora, imagine o que pode acontecer?", questionou.


O presidente do MDB, Baleia Rossi, também divulgou uma nota crítica a Lula, mas o emedebista, assim como líderes de outros partidos consultados pela Folha, diz que o embate em São Paulo não deve ter reflexos em Brasília.

Apesar do apoio de Bolsonaro a Nunes, não interessa para os emedebistas, ao contr√°rio dos petistas, nacionalizar a eleição.

"O presidente da República foi a São Paulo com a estrutura do governo para fazer campanha eleitoral contra o MDB, partido com tr√™s ministros que t√™m feito um trabalho exemplar para o país. Respeitar a lei eleitoral é respeitar a democracia. O chefe da nação deveria dar o exemplo. [¬Ö] No Congresso Nacional, nossos 44 deputados e 11 senadores t√™m tido uma ação colaborativa-propositiva", diz a nota de Baleia Rossi.

À reportagem ele afirma que o MDB não vai antecipar 2026 nem remoer o passado. "O que queremos é mostrar que Nunes é um democrata, com entregas reconhecidas. Queremos fazer o debate do município."

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, afirmou ao Painel que "é errado misturar as coisas". "Nem o presidente Lula nem o PT tem de abrir mão de apoiar candidatos nas eleições municipais para manter a relação com partidos aliados no Congresso."

Na quarta, o ministro do Empreendedorismo, M√°rcio França (PSB), aliado de Tabata, disse que Lula tem muita experi√™ncia e não faz nada à toa. França esteve no evento da deputada, mas não compareceu ao ato das centrais sindicais por não ter sido convidado, segundo seu gabinete.

"Quando ele faz, ele est√° pensando em alguma coisa, aí a gente vai depois às vezes descobrir l√° na frente [o objetivo]", afirmou.

França disse ainda que "de jeito nenhum" o PSB seguiria o exemplo dos partidos que acionaram a Justiça contra Lula e Boulos. Tabata afirmou que a equipe jurídica ainda analisava o caso, mas a decisão foi a de não tomar nenhuma provid√™ncia, dada a proximidade da legenda com o governo.

Portal Correio - com Carolina Linhares e Joelmir Tavares, Folhapress

Comunicar erro
Banne 02

Coment√°rios

Banne 03